sábado, 11 de dezembro de 2010

QUANDO OUVIMOS UM NÃO

Por mais feliz que seja uma pessoa, ou por mais centrada que ela seja, existem momentos em que toda a fortaleza de nossa estrutura psicológica pode ser abalada. Hoje, eu gostaria de trazer aqui uma breve reflexão sobre o momento em que, ao amarmos alguém, ouvimos dele ou dela que o sentimento não é recíproco; ou seja, ouvimos um "não". A dor pode ser ainda maior quando sabemos que a outra pessoa nutre por nós um sentimento forte de atração; porém, não se permite estar junto. Enfim, independentemente das razões latentes pelas quais duas pessoas não conseguem se unir em um relacionamento conjugal, fica a dor do luto e, para quem ouviu o "não", a dor, também, da rejeição.
Obviamente, são diversas as emoções que passeiam por nossa alma fragilizada pela perda. Os dias passam e a ausência da pessoa amada, a sua distância proposital, causada pelas circunstâncias da separação, parece não ser preenchida por nenhum outro evento que seja significativo o suficiente para que a dor da perda seja superada. É uma dor surda, uma dor de quem não consegue se dar conta da realidade, dos verdadeiros porquês do afastamento. Um "não" foi ouvido, porém, não digerido por completo. Pelo menos, não nos dias imediatamente posteriores ao último encontro do casal.
Cada pessoa reagirá de acordo com a sua estrutura pessoal. São ferramentas do ego que todos nós temos, porém as usamos a partir de nossas características singulares e individuais. Recentemente, li um texto que dizia que há dois caminhos a seguir no caso de se ter sido abandonado ou abandonada pela pessoa amada: chorar a dor ou seguir em frente, encontrando-se com amigos e falando o mínimo possível sobre o assunto.
Em minha percepção, acredito que aconteça um pouco de cada coisa. É impossível seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Isto não existe. Todos choramos a dor. Contudo, há os que se revoltam e, por um momento, ou pela vida toda, nutrem um ódio sem precedentes pela pessoa então amada. Por outro lado, há os que sofrem pela perda e procuram ajuda de profissionais, como os psicólogos, ou de outros profissionais e pessoas que estão mais próximas ou que são mais competentes ou vividas para compartilharem a sua experiência de vida. A intenção aqui é auxiliar a pessoa em luto, abandonada, a compreender melhor a situação que está vivendo e lidar da maneira mais saudável possível com a perda.
Existem recaídas. Estas acontecem quando, de fato, há um sentimento verdadeiro de ternura e carinho pela pessoa amada. Não há como escaparmos da dor de perdermos as pessoas que amamos. Entretanto, não há como viver sem que corramos tais riscos. Tudo o que processamos em nossa vida, todos os nossos esforços para sermos felizes, para nos satisfazermos, são passíveis de falha. No campo das relações humanas, não existe investimento cem porcento seguro. Existem pessoas que, para se pouparem de sofrimento, decidem não se arriscar em relacionamentos, sejam eles de amor ou amizade. A tendência ao isolamento é forte nestes casos. Doi amar, mas parece ser a vocação humana mais plena de nobreza. Ao amarmos, damo-nos conta de que existimos. Falo do amor saudável, participativo da vida do outro. O ciúme pode ser um indicador desta saúde, mas é um fator perigoso quando a auto-estima de um dos amantes é rebaixada. Em casos assim, é mais provável que haja uma simbiose ou uma fixação na pessoa amada, de modo que, no futuro, a relação venha a se tornar insustentável.
Uma relação reciprocamente amorosa é construtiva para ambos. Existe uma construção mútua de sonhos. A individualidade é preservada. Mas, não há perfeição. Os conflitos existem e são parte intrínseca das relações interpessoais, sejam elas da natureza que forem.
Portanto, invista no amor. Permita que ele se aproxime de você. O medo é natural. Preserve-se. Não é qualquer um que merece o que temos de melhor. Mas, aceite o risco. Quanto mais verdadeiros formos, quanto mais questionadores formos, mais poderemos estar perto de relações saudáveis. A submissão ao outro é uma forma de autodestruição. Seja você com naturalidade e com o mínimo possível de agressividade desnecessária. Se a pessoa amada agride, tenha cuidado. Talvez, ela não esteja no momento propício para uma troca positiva. Que a dor seja aceita como parte destes melindres da vida, e quando ela vier, que seja vivida e pensada, a fim de que não voltemos a sofrer pelos mesmos motivos das experiências passadas.