segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O QUE FAÇO COMIGO MESMO(A)?


Em algum momento de nossa história - e aí ressurgem as marcas do passado, incômodas, porém presentes até hoje - aceitamos a ideia (falsa) de que não merecemos estar bem, sermos, por assim dizer, "felizes". Ao pensar em "estar mal para ser aceito", fica uma outra dimensão para refletir. Não se trata somente do "ser aceito pelos outros", mas por "mim mesmo", na medida em que, em algum lugar inconsciente, ficou a ideia prevalente de que "estar bem não é para mim", não é um direito que me cabe. Nesta etapa da existência, portanto, eu me torno um "algoz de mim mesmo". Quando chega o dinheiro, sinto culpa, mal-estar. Quando vem o amor, sempre surgem os problemas insuperáveis, e o amor acaba, não sobrevive. Quando surgem alegrias, precisam ser efêmeras. Tudo isto em função de uma ideia que predomina no pensamento, enquanto função psíquica. 
Como superar este obstáculo? Fazendo como Descartes: duvidando. Devo questionar o sentido desse mal-estar em momentos bons, desse "desarranjo" na minha harmonia interna. Mais do que os outros, eu posso ser o meu maior obstáculo (sem acusações aqui, para não criar mais culpa). Tudo isto são frutos de uma história em que a auto-estima não foi cultivada, não aprendi a me achar bonito, não "me sentia", como se diz por aí. A autoconfiança então... foi pro ralo. Vida filha da puta! (na hora do desabafo). Mas, a raiz foi bem plantada. Eu me convenci de que "não posso estar bem", não tenho esse direito. Armadilhas do inconsciente. 
Enfim, um ponto para refletir. Refletir para avançar, duvidar do que me fizeram acreditar sobre mim. Daí, não precisarei estar mal pra me sentir no meu lugar. O MEU LUGAR PODE SER OUTRO. É preciso "subverter" a ordem dessa ditadura psíquica, plantada por outros e sustentada por mim mesmo. É um tanto intimista esta forma de pensar, admito; porém, não me parece "individualista". Afinal de contas, alguém tem que cuidar desta vida, que é minha. Lembro aqui um pensamento de Sartre: "O problema não é o que fizeram de mim, mas o que EU fiz do que fizeram de mim".

A. Sandro Luz
Terapeuta, professor e artista


quarta-feira, 20 de julho de 2011

A MEIA IDADE

“O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.” Poema Ser, Carlos Drummond de Andrade.

É. O tempo passa. Ao refletir sobre o fato de que nascemos, crescemos e somos educados para o sucesso, de alguma forma, é normal pensar que, na meia idade, todos nós queiramos estar no meio deste “sucesso” para o qual fomos, de certa forma, moldados, vivendo-o, colhendo os seus primeiros frutos; mas, ainda, construindo-o. É fato que o sucesso, ou o que se entende por ele hoje, é um domínio das classes mais altas. A pessoa de meia idade, diz-se dos 40 aos 60 anos (há quem discorde) pode passar por algumas crises ao pensar no que tem construído até esse momento de sua vida. Acredito que o seu maior anseio é saber – sem perguntar a ninguém – se ainda é interessante, não só por seu jeito de ser, mas também fisicamente. O rosto juvenil ainda aparece em alguns traços, insiste em existir; porém, o charme de uma beleza madura parece reivindicar um lugar que agora é seu. A transição feita aos 40 anos não é tão simples, especialmente para os solteiros. O início do poema de Drummond já passa a fazer um sentido concreto. Não dá para negar que “o filho que não fiz hoje seria homem”. Talvez não haja um sofrimento por não ter tido um filho, se esta foi uma opção; mas, parece que o que ele ou ela compreende por solidão é reelaborado. Não dá para mentir para si e viver uma solidão cinematográfica, sentado, à noite, em um sofá, olhando as luzes da cidade e achando que estar só é um momento que vai passar, já que “tenho uma vida inteira pela frente”.
A meia idade pode ser um fantasma, um disfarce sinistro do tempo. Tudo ainda é belo. Ainda... Cosméticos, plástica, colágeno, elastina, alimentos saudáveis, antioxidantes passam a ser palavras comuns no dia a dia de muita gente de meia idade. Não que seja ruim estar onde está, mas... acostumar-se é o único jeito. Então... não é tão bom, de fato. Em termos psicológicos, há uma revisão do esquema corporal, do tudo e do todo que se é até aquele momento. Uns se entregam a uma vida sedentária. Agora é só trabalho – ou trabalho e estudo – daqui para frente. Outros se entregam às academias. Agora é tudo ou nada. Músculos modelados ou solidão para sempre!... É angustiante lutar para continuar existindo em uma sociedade que estima excessivamente a beleza juvenil, da pele firme, do tônus muscular “adequado” – digo, sarado. Tudo não passa de um desejo de se estar ainda aqui, vivo no mundo, amando ou sentindo que ainda dá para ser amado, querido por alguém. Temos medo da velhice por sabermos que, na verdade, quando envelhecemos deixamos de existir do jeito da maioria e passamos a existir de outro jeito. O jeito ancião de existir não seduz pela aparência; pelo contrário, seduz a poucos. A meia idade é um aviso, um “sinal amarelo”, ou a lembrança da certeza de nossa finitude. Até ela, muitos de nós nos sentimos eternos, ou simplesmente não consideramos o inegável fato de que o tempo passa, não para.
            A meia idade não é um mistério. É um momento concreto. Para os que ouviram alguém um dia, a meia idade é o começo de uma colheita. É a fase de amores carnais sim, mas com uma boa conversa. Hoje, com o avanço tecnológico da medicina e da estética, a meia idade é uma possibilidade de muitas novas experiências, de escolhas antes nunca feitas. Sem nenhuma dúvida, é um momento para ser vivido. Já que o tempo não para, só nos resta viver. Que seja bem!

A. Sandro Luz 
Terapeuta e professor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

QUANDO EU PASSO PELO OUTRO

Ao tomar carona com um amigo em São Paulo, em uma das regiões mais ricas da cidade mais rica do país, íamos subindo a Rua Augusta. Ao subirmos, eu vi diversas pessoas que vivem em situação de rua. Os chamados "mendigos". Eu já trabalhei como voluntário em entidades que dão apoio à população de rua. São inúmeros seres humanos que, por diversos motivos, que justificam ou não justificam a sua situação, perderam o seu lugar na história. Foram excluídos de um sistema que não consegue e não quer privilegiar a todos. Ao subirmos de carro, em um lindo modelo importado, eu não conseguia me sentir à vontade diante de tamanha desigualdade. Diante de mais esta motivação, eu continuei a refletir sobre um tema que é forte no meio acadêmico, mas estranho para a maioria das pessoas no mundo além das paredes das grandes palestras e debates acadêmicos: a alteridade.
Não vou falar do conceito, pois não quero entrar em um nível científico de análise, mas falar sobre o outro, sobre o reconhecimento do outro enquanto alguém que existe ou quer existir; quer que sua história tenha sentido e prossiga contribuindo para o seu bem-estar e o de outros. As pessoas deitadas nas calçadas, debaixo de abrigos de pontos de ônibus tentando se proteger das chuvas pesadas de verão são "o outro", são "outros" cujas faces são anônimas, silenciosas, inexistentes em nossas vidas. São e serão a lembrança constante de que estamos indo por caminhos errados. O maior desafio para as pessoas é dividir. Não tenho dúvida de que a partilha, a doação do que se tem sem o sentido da caridade imediata, mas a distribuição mais justa dos bens adquiridos na produção é um desafio que questiona a nossa inteligência. Se somos tão capazes de criar novas tecnologias de produção, de descobrir caminhos de cura para enfermidades letais como a aids, a sífilis, o câncer, etc., por que não conseguimos extinguir a realidade dos moradores de rua?
Existem milhares de possíveis respostas provindas de milhares de mentes criativas e pensadoras. Existem diversos caminhos e propostas para a superação de um mal social que aflige as sociedades urbanas há séculos. Aqui eu gostaria de arriscar uma resposta, que, ao mesmo tempo, pode ser uma semente para um caminho prático, uma atitude social concreta, que resulte na extinção da dura realidade dos moradores de rua. O que eu posso responder, enfim, é que a nossa dificuldade em superarmos uma realidade tão cruel e desigual é que "para nós, ou para a maioria de nós, o outro não existe". Lembrando o filósofo francês Jean Baudrillard, nós escolhemos viver uma condição de massa, na qual qualquer conhecimento libertador cai em uma espécie de buraco negro e simplesmente desaparece, tornando sem efeito, portanto, a sua proposta. O grande carrossel de crueldade gerado por grandes instituições financeiras, que são quem, de fato, controla a humanidade, não dá tempo para o homem comum, pessoa natural, olhar para os lados. Ou sobrevivemos ou sobrevivemos. Somos bilhões de seres humanos com as mesmas necessidades mediatas e imediatas, com os mesmos anseios filosóficos, refletidos ou não refletidos, lutando pelo que chamamos de "um lugar ao sol". Sol que não se põe, não se apagará enquanto existirem pessoas no mundo. Porém, o sol aqui é o lugar de onde olho para os outros, o lugar no qual descanso e me preparo para o próximo dia. Pode ser a cama. Precisamos de uma cama todas as noites. Muitos não param para pensar, mas chegar ao fim do dia e buscar um lugar onde dormir seguro é o objetivo de todos. Ficar na rua pode ser uma opção para os chamados "baladeiros", mas é uma escolha deles. Todavia, ficar na rua olhando as luzes dos apartamentos e das casas sabendo que em NENHUMA delas você pode entrar simplesmente porque lá você é um estranho ou uma estranha seguramente doi demais. Entretanto, como a vida tende a se atualizar constantemente, como disse Carl Rogers, ou seja, já que a vida insiste em existir, a pessoa excluída do direito a um teto seguro e confortável, cria formas conscientes e inconscientes de suportar a indiferença social, a condição de um morto-vivo, de um inexistente, de um não-ser. Quantas vezes, você já passou por alguém nesta condição enquanto ia feliz a um restaurante com pessoas queridas? Como se sentiria se estivesse no lugar daquele ou daquela que viu você passar? "Que horror, Sandro! Agora você está "chutanto o balde"! "Não precisa se tão trágico!" Afinal, eu também tenho o direito de ser feliz e não fui eu quem pus aquela pessoa nessa condição!" Enfim, são inúmeras as defesas que, sem dúvida, são verbalizadas quando estamos sob a pressão de sairmos de nossa zona de conforto e nos sentirmos mal com os fatos. É verdade quando dizem que gostamos de canções para dormir. Eu não me sinto bem constatando a minha fragilidade diante de um sistema que não me deixa escolha senão desconsiderar o outro para seguir existindo. Muitos terão que ser esquecidos por mim a fim de que eu sobreviva à pressão de produzir e manter alguma abelha-rainha, bem gorda, em algum lugar do planeta.
A reflexão sobre a alteridade é um caminho que nos conduz ao outro, que considera o outro enquanto parte de mim e coadjuvante na construção do meu caminho pessoal. Por outro lado, eu sou coadjuvante na construção da história dele ou dela. Somos todos protagonistas e coadjuvantes simultaneamente. Não há como a humanidade, em seu cotidiano, criar políticas públicas de erradicação da miséria sem que todos participem. Todos precisam dar de si. Não se trata de dar dinheiro, de fazer doações catársicas em contas bancárias, mas de dar parte de seu TEMPO para o outro. Quer ser feliz? De o que tem de melhor a alguém: você e o seu tempo! O dinheiro é importante. Afinal, é ele que o mantém longe da vida na rua. Você tem sorte! Mas, poderia ser você o outro esquecido... Nunca deixe de considerar esta hipótese. Contudo, não estenda a mão se não existe o sentimento de estender a mão. Não faça para se sentir aliviado ou aliviada. Faça pelo outro porque seria bom que fizessem o mesmo para você. Queira bem a um estranho, a um doente no hospital, a um sofredor de rua, a um órfão, a um homossexual espancado por causa da intolerância, a uma prostituta e tantos outros. Conheça-se ao se encontrar com o outro. Os capitalistas gastadores e egoístas são pessoas que não tem condições psíquicas de perceber a alteridade. Não precisam ser ricos para isto. Basta que sejam deslumbrados com as posses ou com a ideia de possuir as coisas e as outras pessoas.
Concluindo, a alteridade é uma construção que considera somente a intersubjetividade para que um ser humano construa saudavelmente a sua identidade. Não existe identidade individual, como dizia Herbert Mead, sem uma construção social. Não existe identidade sem a construção ou a consideração da alteridade. O outro existe e está ali, segundo Pedrinho Guareschi. Negá-lo é uma forma de suportarmos um sistema que nos controla, mas não é um caminho que realmente nos liberte como pessoas. Aceitar o outro, pensar nele é o caminho para nos curarmos da doença mental que se impõe sobre nós por meio do consumo incentivado pelos meios de comunicação de massa, pela publicidade individualista, sem alteridade. É possível que a humanidade não se recupere das infelizes escolhas que fez no decorrer de sua história. Mas, é possível haver as revoluções pequenas, individuais, porém, transformadoras. Pense nisto.