Ao tomar carona com um amigo em São Paulo, em uma das regiões mais ricas da cidade mais rica do país, íamos subindo a Rua Augusta. Ao subirmos, eu vi diversas pessoas que vivem em situação de rua. Os chamados "mendigos". Eu já trabalhei como voluntário em entidades que dão apoio à população de rua. São inúmeros seres humanos que, por diversos motivos, que justificam ou não justificam a sua situação, perderam o seu lugar na história. Foram excluídos de um sistema que não consegue e não quer privilegiar a todos. Ao subirmos de carro, em um lindo modelo importado, eu não conseguia me sentir à vontade diante de tamanha desigualdade. Diante de mais esta motivação, eu continuei a refletir sobre um tema que é forte no meio acadêmico, mas estranho para a maioria das pessoas no mundo além das paredes das grandes palestras e debates acadêmicos: a alteridade.
Não vou falar do conceito, pois não quero entrar em um nível científico de análise, mas falar sobre o outro, sobre o reconhecimento do outro enquanto alguém que existe ou quer existir; quer que sua história tenha sentido e prossiga contribuindo para o seu bem-estar e o de outros. As pessoas deitadas nas calçadas, debaixo de abrigos de pontos de ônibus tentando se proteger das chuvas pesadas de verão são "o outro", são "outros" cujas faces são anônimas, silenciosas, inexistentes em nossas vidas. São e serão a lembrança constante de que estamos indo por caminhos errados. O maior desafio para as pessoas é dividir. Não tenho dúvida de que a partilha, a doação do que se tem sem o sentido da caridade imediata, mas a distribuição mais justa dos bens adquiridos na produção é um desafio que questiona a nossa inteligência. Se somos tão capazes de criar novas tecnologias de produção, de descobrir caminhos de cura para enfermidades letais como a aids, a sífilis, o câncer, etc., por que não conseguimos extinguir a realidade dos moradores de rua?
Existem milhares de possíveis respostas provindas de milhares de mentes criativas e pensadoras. Existem diversos caminhos e propostas para a superação de um mal social que aflige as sociedades urbanas há séculos. Aqui eu gostaria de arriscar uma resposta, que, ao mesmo tempo, pode ser uma semente para um caminho prático, uma atitude social concreta, que resulte na extinção da dura realidade dos moradores de rua. O que eu posso responder, enfim, é que a nossa dificuldade em superarmos uma realidade tão cruel e desigual é que "para nós, ou para a maioria de nós, o outro não existe". Lembrando o filósofo francês Jean Baudrillard, nós escolhemos viver uma condição de massa, na qual qualquer conhecimento libertador cai em uma espécie de buraco negro e simplesmente desaparece, tornando sem efeito, portanto, a sua proposta. O grande carrossel de crueldade gerado por grandes instituições financeiras, que são quem, de fato, controla a humanidade, não dá tempo para o homem comum, pessoa natural, olhar para os lados. Ou sobrevivemos ou sobrevivemos. Somos bilhões de seres humanos com as mesmas necessidades mediatas e imediatas, com os mesmos anseios filosóficos, refletidos ou não refletidos, lutando pelo que chamamos de "um lugar ao sol". Sol que não se põe, não se apagará enquanto existirem pessoas no mundo. Porém, o sol aqui é o lugar de onde olho para os outros, o lugar no qual descanso e me preparo para o próximo dia. Pode ser a cama. Precisamos de uma cama todas as noites. Muitos não param para pensar, mas chegar ao fim do dia e buscar um lugar onde dormir seguro é o objetivo de todos. Ficar na rua pode ser uma opção para os chamados "baladeiros", mas é uma escolha deles. Todavia, ficar na rua olhando as luzes dos apartamentos e das casas sabendo que em NENHUMA delas você pode entrar simplesmente porque lá você é um estranho ou uma estranha seguramente doi demais. Entretanto, como a vida tende a se atualizar constantemente, como disse Carl Rogers, ou seja, já que a vida insiste em existir, a pessoa excluída do direito a um teto seguro e confortável, cria formas conscientes e inconscientes de suportar a indiferença social, a condição de um morto-vivo, de um inexistente, de um não-ser. Quantas vezes, você já passou por alguém nesta condição enquanto ia feliz a um restaurante com pessoas queridas? Como se sentiria se estivesse no lugar daquele ou daquela que viu você passar? "Que horror, Sandro! Agora você está "chutanto o balde"! "Não precisa se tão trágico!" Afinal, eu também tenho o direito de ser feliz e não fui eu quem pus aquela pessoa nessa condição!" Enfim, são inúmeras as defesas que, sem dúvida, são verbalizadas quando estamos sob a pressão de sairmos de nossa zona de conforto e nos sentirmos mal com os fatos. É verdade quando dizem que gostamos de canções para dormir. Eu não me sinto bem constatando a minha fragilidade diante de um sistema que não me deixa escolha senão desconsiderar o outro para seguir existindo. Muitos terão que ser esquecidos por mim a fim de que eu sobreviva à pressão de produzir e manter alguma abelha-rainha, bem gorda, em algum lugar do planeta.
A reflexão sobre a alteridade é um caminho que nos conduz ao outro, que considera o outro enquanto parte de mim e coadjuvante na construção do meu caminho pessoal. Por outro lado, eu sou coadjuvante na construção da história dele ou dela. Somos todos protagonistas e coadjuvantes simultaneamente. Não há como a humanidade, em seu cotidiano, criar políticas públicas de erradicação da miséria sem que todos participem. Todos precisam dar de si. Não se trata de dar dinheiro, de fazer doações catársicas em contas bancárias, mas de dar parte de seu TEMPO para o outro. Quer ser feliz? De o que tem de melhor a alguém: você e o seu tempo! O dinheiro é importante. Afinal, é ele que o mantém longe da vida na rua. Você tem sorte! Mas, poderia ser você o outro esquecido... Nunca deixe de considerar esta hipótese. Contudo, não estenda a mão se não existe o sentimento de estender a mão. Não faça para se sentir aliviado ou aliviada. Faça pelo outro porque seria bom que fizessem o mesmo para você. Queira bem a um estranho, a um doente no hospital, a um sofredor de rua, a um órfão, a um homossexual espancado por causa da intolerância, a uma prostituta e tantos outros. Conheça-se ao se encontrar com o outro. Os capitalistas gastadores e egoístas são pessoas que não tem condições psíquicas de perceber a alteridade. Não precisam ser ricos para isto. Basta que sejam deslumbrados com as posses ou com a ideia de possuir as coisas e as outras pessoas.
Concluindo, a alteridade é uma construção que considera somente a intersubjetividade para que um ser humano construa saudavelmente a sua identidade. Não existe identidade individual, como dizia Herbert Mead, sem uma construção social. Não existe identidade sem a construção ou a consideração da alteridade. O outro existe e está ali, segundo Pedrinho Guareschi. Negá-lo é uma forma de suportarmos um sistema que nos controla, mas não é um caminho que realmente nos liberte como pessoas. Aceitar o outro, pensar nele é o caminho para nos curarmos da doença mental que se impõe sobre nós por meio do consumo incentivado pelos meios de comunicação de massa, pela publicidade individualista, sem alteridade. É possível que a humanidade não se recupere das infelizes escolhas que fez no decorrer de sua história. Mas, é possível haver as revoluções pequenas, individuais, porém, transformadoras. Pense nisto.