Se alguém aqui já viu o filme
Zeitgeist Addendum, um documentário sobre a corrupção social humana,
patrocinada especialmente pelos Estados Unidos, ou pelo governo americano e
seus grandes conglomerados econômicos, irá estabelecer alguma relação com o
roteiro do filme e o que direi neste artigo. Digo alguma relação, pois o
raciocínio não é o mesmo, já que sou brasileiro e pretendo expor algo de um
jeito menos complexo.
Por que o nome “vírus do vírus”? Bem,
comecemos por pensar em levantes sociais e suas causas. Um de meus alunos de
inglês me disse um dia que uma revolução inicia quando os humildes se sentem
humilhados. Ele quis dizer que não existe uma revolução que venha de cima para
baixo. Claro que não! Os mais ricos, que detêm o poder, vivem em sua zona de
conforto e têm o controle financeiro de uma sociedade. Obviamente, eles não têm
pelo que lutar a não ser por si mesmos. Infra-estrutura de saúde, de educação,
de moradia e saneamento, trabalho, enfim, eles têm tudo de que necessitam e agradecem
a Deus pelo fruto de “seu” trabalho, como se trabalhassem sozinhos e não tivessem
funcionários que trabalham até mais do que eles, mas não recebem os mesmos “presentes”
de Deus. Daí, as comoções sociais. Há um momento em que um grupo mais
articulado resolve reagir àquilo que parece natural para os mais ricos, mas que
provoca sofrimento à maioria. Começam a reagir a uma estrutura que não os
privilegia, ou que não os reconhece. Sim, os levantes sociais são uma exigência
de reconhecimento social, uma luta para sair da invisibilidade.
Nos últimos meses, o Brasil tem
sido palco de diversas manifestações de ruas, com certa dose de radicalidade,
ainda que não se tratem de uma revolução no termo estrito da palavra. São
manifestações que visam à transformação da estrutura política e social do país,
mas não são revoluções armadas. Pelo menos, assim entendo. Para os que leram sobre
a revolução francesa, sabem que o nosso caso é bem mais brando, digo, as nossas
manifestações. A tomada da Bastilha foi sangrenta e poucos foram os nobres que
sobreviveram para contar a história a partir de sua ótica opressora. Falando na
ótica do opressor, qual seria ela em termos discursivos? Seria mais ou menos o
que ouvimos nos noticiários da famigerada rede globo de televisão. Coisas do
tipo “vândalos estão depredando o patrimônio público”. Entendam bem que não
estou assumindo uma posição a favor da depredação de ônibus e prédios públicos.
Porém, vejo que há uma forma simbólica nesses atos de se agredir o Estado
agressor. Obviamente que existem os mais comedidos, que levam seus cartazes, e
os mais radicais, que depredam prédios públicos.
A mídia, estrategicamente, faz o
seguinte: volta a atenção de todos para os componentes do Black Block e outros
com comportamento semelhante. Daí, passam a falar de destruição, exibem ônibus
em chamas, agências de banco depredadas, etc. Tudo é transformado em um grande
espetáculo visual e o principal fica de fora, o porquê desta forma de
violência. Com o foco de nossa atenção no Black Block, somos induzidos a
continuarmos sem pensar nas razões pelas quais realmente necessitamos de
mudanças. Prestem atenção aos prédios públicos! São pobres em geral. As escolas
públicas, principalmente as estaduais, parecem presídios, são desconfortáveis e
mal equipadas. O transporte público é vergonhosamente ineficaz. Alguém de vocês
já utilizou os trens da CPTM? Nem porcos seriam transportados nesses trens em
países mais sérios. Sim, o patrimônio público está sendo depredado pelo próprio
Estado. A vida dos cidadãos é uma vida depredada pelo fruto da corrupção, da
verticalização do poder. As pessoas são subjugadas a um sistema financeiro
aterrorizador, que as obriga a produzir para pagar suas dívidas. Dívidas
intermináveis, que as mantêm sob controle.
Os “vândalos” são o que os meios
de comunicação precisavam para não revelar o câncer social. Falemos deles e
todos ficarão desencorajados a fazer uma revolução. Eles são um vírus. É feio
gritar e arrebentar, expor o ódio e a indignação contidos há cinco séculos de
negligência administrativa no Brasil. Quem nunca sentiu vontade de quebrar os
trens da CPTM, de arrebentar uma maldita porta giratória de um banco, que nos
rouba a juros altíssimos pelos empréstimos que faz com um dinheiro que não é
dele e ainda nos trata como marginais em suas portas? Medo!... Medo é o que
sentem as instituições que mantêm o status de desigualdade irracional em que
vivemos. A própria psicanálise fala do superego enquanto instância psíquica que
internaliza as normas sociais e oprime o id, nossa instância mais agressiva e
natural. Infelizmente, a psicanálise não teve um discurso politicamente forte o
bastante para explicar porque existe o domínio dos poderosos. Esta é uma
questão sociológica, ideológica, regida pelos grandes conglomerados
financeiros, CIA, etc.
Falemos do Black Block, falemos
do que eles quebram e assim ignoraremos os reais motivos pelos quais vivemos na
merda social, comendo na latrina dos ricos, vivendo para acreditar que ser bem
sucedido é poder comprar, fazer dívidas, alimentando, assim, a nossa
abelha-rainha, o dinheiro, que, no fundo, sequer existe de fato. Aí está o
vírus real!
Esta não é uma realidade
brasileira, mas um fenômeno mundial. O Brasil é parte disto. A rede globo é
paga para manter o status quo. Afinal
de contas, ela deve, como todos nós devemos. Se alguém cortar a raiz do
sistema, o marketing desaparecerá, Neymar (a figura, não a pessoa), Barcelona,
Ford, Exxon e outros demônios pós-modernos desaparecerão.
Os mecanismos de controle
ideológico são sutis e continuarão se aperfeiçoando enquanto for interessante
para o pequeno percentual que controla quase toda a riqueza mundial e tem na
desigualdade um fator necessário para seguir existindo. É isto mesmo: a
desigualdade é fator necessário para a sobrevivência do sistema social em que
vivemos. Ela é a grande condição para a perpetuação do capitalismo, do
neoliberalismo. Ao se falar dos “vândalos”, não se fala destes detalhes
sórdidos. A mídia acompanha tudo e adocica a boca de quem acredita nela. E
assim vamos indo. Dá para ser feliz assim? Dá, claro que dá. A felicidade não
supõe o torpor do raciocínio. Ninguém precisa ser ingênuo para ser feliz. Mas,
ser feliz é mais uma luta por algo justo, do jeito que escolhermos lutar, do
que um estado constante de bem-estar. Saber é sofrer, mas é, também,
libertar-se, rir sabendo do que e porque se ri. Abraço a todos.
Sandro Luz