sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O OUTRO EM MINHA VIDA

Algumas pessoas imaginam que estar bem é cuidar de si mesmo. Existe aí certo engano. Se eu sou alguém que existe porque se relaciona (isso é ser humano), é impossível cuidar de mim mesmo sem cuidar do outro. É uma troca. Não é um mercado. Entenda bem. A troca é gratuita e todos saem ganhando, ao contrário do mercado. A Psicologia tem, também, como missão, desconstruir a ilusão de que serei feliz se pensar em mim, ou se comprar aquele carro, aquela roupa, aquela moto. A idéia do poder está muito presa à idéia de aquisição de tudo inclusive do outro. Trata-se do individualismo comum em nossa sociedade capitalista. Eu sou o que consumo. E se consumo o outro, é uma conseqüência, não uma responsabilidade minha. Entenda-se consumir o outro como usá-lo mesmo. Usá-lo e descartá-lo, porque tudo tem data de validade, até o outro. Guareschi (1998) afirma que, no mundo neoliberal, os indivíduos são os responsáveis únicos e últimos por seu sucesso ou por seu fracasso. É a solidão globalizada. E onde está o outro?
O outro está no mesmo lugar em que me encontro comigo. Se hoje as pessoas estão tão distantes umas das outras, se há tão pouca confiança, não é porque o outro não presta, mas é porque não aprendemos a acreditar que “eu presto e posso gostar de mim”. Não há como gostar de alguém se eu não tenho idéia do que sou, se não tenho o mínimo de vontade de me conhecer a mim mesmo e de me aceitar. Rogers (1977) afirma que para crescer como pessoa eu preciso aceitar-me a partir dali, do lugar onde estou em minha própria vida. Preciso assumir se gosto ou não de mim, se sou bom ou mau para mim mesmo. Preciso ir aprendendo sobre os meus preconceitos contra mim e contra tudo o que é aparentemente diferente de mim. É a partir daí que o outro começa a existir, como uma pequena luz que se acende aos poucos em minha vida. Conseqüentemente, vou-me dando conta de que não estou só. Há pessoas à minha volta, tão desejosas de felicidade quanto eu. Não são iguais a mim e nem serão. São dignas de respeito, como eu mesmo o sou.
O individualismo, ou o intimismo, cai quando percebo o outro. Guareschi (1998) diz que não podemos negar a existência e a realidade do outro. Na verdade, existir é considerar o outro. Eu não existo se não me relaciono. Precisamos do reconhecimento do outro e precisamos reconhecer o outro. Mas, antes, eu preciso deixar de ser um estranho para mim mesmo.
Aí está um dos grandes objetivos, ou o maior objetivo da Psicologia como um todo, e da Psicologia Humanista, de maneira particular: deixar de ser um estranho para mim melhorando o meu autoconceito e, em conseqüência, o conceito que tenho do outro em minha vida.


Adalmir Sandro L. Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br

REFERÊNCIAS:

ROGERS, C.R. e ROSENBERG, R.L. A Pessoa Como Centro. São Paulo: EPU, 1977.GUARESCHI, P. Alteridade e Relação: Uma Perspectiva Crítica. Em Arruda, Ângela (org.). Representando a Alteridade. Petrópolis: Vozes, 1998. pp. 149-161

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

AUTO-ESTIMA E AUTOCONFIANÇA

No mundo de hoje não temos muito tempo para refletir sobre o que nos faz bem e como algum fato nos faz bem. Crescemos e nos desenvolvemos com muitas informações sobre quase tudo, mas com quase nenhuma reflexão. Entretanto, fica a pergunta: o que realmente nos faz bem? Sem dúvida, sentir-se bem está relacionado com estar bem consigo mesmo. Daí pensarmos na auto-estima, ou na alta auto-estima. A auto-estima é o que sinto por mim, o que penso de mim mesmo. Isto exige parar para pensar. Hoje em dia, a relação entre pais e filhos está, pelo que percebo, mais marcada por uma “alimentação” da autoconfiança em prejuízo da auto-estima.
Mas, qual viria a ser a diferença entre estes dois conceitos? Leia com atenção esta passagem:

...o fruto mais maduro dessa árvore (a sociedade) é o indivíduo soberano, o indivíduo próximo de si mesmo, o indivíduo livre da moralidade dos costumes, o indivíduo autônomo e supermoral (acima da moral), porque autônomo e moral se excluem um ao outro; numa palavra, o homem dotado de vontade própria, independente, persistente, o homem que tem o direito de prometer – e que possui em si mesmo a consciência orgulhosa, que faz vibrar todos os seus músculos, por aquilo que acabou de conseguir e por se encarnar em si, uma verdadeira consciência de seu poder e de sua liberdade, um sentimento de plenificação (sentir-se completo, pleno) do homem em geral (NIETZSCHE, 1887).

Nesta breve passagem da obra A Genealogia da Moral, do filósofo alemão Nietzsche, dá para perceber que auto-estima e autoconfiança, ainda que caminhem juntas, são diferentes. A auto-estima é estar próximo de si, orgulhoso de si mesmo. Já a autoconfiança é vibrar por tudo aquilo que consigo e acreditar, confiar que posso conseguir, que sou capaz. É claro que não se trata de uma receita de felicidade. Não existem receitas para ser feliz. Existe um caminho: buscar gostar de mim mesmo e confiar que posso vencer. Não me refiro à vitória financeira. Ainda existem pobres felizes. Refiro-me à vitória de estar vivo e acreditando em mim, relacionando-me saudavelmente com o mundo, com os outros.
Como um pai ou uma mãe podem ajudar um filho a gostar de si e a confiar em sua capacidade? Lembro-me, aqui, de uma aula de pós graduação que assisti na USP, com o Professor e Psicólogo Hélio Guilhardi. Ele disse que a autoconfiança pode ser adquirida elogiando o filho por algo que ele conseguiu, valorizando sua conquista. Já a auto-estima se adquire sentindo-se amado pelos pais. O filho não precisa fazer nada para ser merecedor do amor e da atenção dos pais. Basta existir. Eu, como pai ou mãe, amo o meu filho por ele existir. Abraço-o, beijo-o, sem medos, sem vergonhas tolas de tocá-lo e fazê-lo menos macho, se for um menino. Todos nós necessitamos do amor expresso no toque do corpo. Não bastam palavras.
O homem autônomo de Nietzsche é, antes de tudo, um homem que se ama, que está próximo de si. Mas, uma pessoa só pode se amar se alguém mostrar a ela o quanto ela vale. O amor é relação. A auto-estima, a boa auto-estima, nasce de uma relação de amor e respeito. Nasce de abraços, de carinhos. Não bastam presentes de fim de ano ou no mês de outubro. O filho, o amigo, o pai, a mãe existem o ano todo e precisam saber sempre que valem a pena, não por serem bons ou inteligentes, ou, ainda, produtivos, mas simplesmente por existirem.
Portanto, a tarefa de construir a alta auto-estima e a autoconfiança é constante. Na infância, na adolescência, na fase adulta e na melhor idade. Somos continuamente responsáveis pelo outro e por nós mesmos. Precisamos acreditar neste fato e agir em favor de nós mesmos e do outro.


Adalmir Sandro L. Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br


REFERÊNCIA:
NIETZSCHE, W. A Genealogia da Moral (1887). Trad. Antonio C. Braga. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal. São Paulo: Escala

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

LET'S NOT SABOTAGE OURSELVES

Psychology, grosso modo, helps us perceive the best of our potentialities. In all its areas, Psychology is person centered and sees us as the builders of our own history, able to positively organise our lives despite the daily conflicts we have to cope with. As Rogers, a North American psychologist, states, a person is able to “move towards a self understanding, and to take constructive procedures so as to solve his or her own problems” (1977:139). Undoubtedly, moving towards self understanding implies, first of all, accepting oneself. From self-acceptance one starts the movement to self-understanding. We cannot understand something if we don’t accept its existence. Thus, we may think that “knowing oneself” isn’t an easy process. It’s about lying before the challenge of “being who we are”, and not “who we want to be” or “need to be". In our contemporary world, it has become easier for us to live as if we were characters of a big theatre play. We live what is expected that we live, be it in the family, or group of friends, in the working environment, or elsewhere. Maybe it’s way easier to give away the oars of our boat to someone else. The responsibility to take on the course of our own lives is, sometimes, anguishing. It isn’t easy to be true in a social environment that overvalues characters instead of real persons. It’s not a mission of Psychology to nourish such characters. Maybe that’s why Psychology may bother some people, once it is a constant invitation to seek our truth. When one does not accept themselves or do not admit being what they are, they sabotage themselves. They cheat their real essence, and run away from what they really want. However, there comes this emptiness inside that we neither know where it comes from nor where it is going to. It is our true self asking to be heard. Therefore, Psychology is supposed to contribute to the improvement of human abilities. An improvement based on the truth of what we really are, without unnecessary and destructive lies, which do not collaborate on the growth and strengthening of our existence. In order to look for a licensed psychologist, we do not need to be “crazy” or suffering. We should only want to get to know ourselves better. That’s the preventive character of Psychology in people’s lives. Brazil has not yet got a preventive approach in terms of health, let alone in terms of mental health. Yet, this is a way for us to positively invest in our quality of life.

Adalmir Sandro L. Oliveira
Psychologist

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

NÃO NOS SABOTEMOS

A Psicologia vem, grosso modo, auxiliar a pessoa a perceber o melhor de suas potencialidades. Em todas as suas áreas de atuação, a Psicologia centra-se na pessoa e a vê como construtora de sua história, capaz de organizar positivamente sua vida apesar dos conflitos diários que tem que enfrentar. Como afirma Rogers, um psicólogo norte-americano, a pessoa tem a "capacidade de caminhar no sentido de uma auto compreensão e de tomar providências construtivas para resolver seus problemas" (1977:139). Sem dúvida, caminhar no sentido de compreender-se implica buscar, antes de tudo, aceitar-se. É a partir da auto-aceitação que se começa a caminhada da auto compreensão. Não posso compreender o que não aceito que existe. Daí, pensar que conhecer-se não é um processo fácil. Trata-se de pôr-se diante do desafio de "ser quem você é” e não ser “quem você deseja ser” ou “precisa ser”.
Em nosso mundo contemporâneo, tornou-se mais fácil vivermos como se fôssemos personagens de uma grande peça teatral. Vivemos o que esperam de nós, seja na família, seja no grupo de amigos, no ambiente de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. Talvez seja mais fácil entregarmos os remos de nosso barco nas mãos dos outros. A responsabilidade de assumirmos o rumo de nossa própria história é, por vezes, angustiante. Não é fácil ser verdadeiro em um mundo social que valoriza personagens e não pessoas reais. Também não é missão da Psicologia alimentar tais personagens. Talvez, por esta razão, a Psicologia incomode algumas pessoas, uma vez que é sempre um convite para buscarmos nossa verdade. Quando não nos aceitamos ou não admitimos ser o que somos, nos sabotamos. Enganamos nossa verdadeira essência, fugimos do que realmente queremos. Entretanto, bate um vazio que não sabemos de onde vem e nem para onde vai. É o nosso eu verdadeiro pedindo para ser ouvido.
A Psicologia tem, portanto, a tarefa de contribuir para o aprimoramento das habilidades humanas. Um aprimoramento embasado na verdade do que somos, sem mentiras desnecessárias e desconstrutivas, que não colaboram para o crescimento e fortalecimento de nossas existências. Para buscar por um profissional habilitado da Psicologia não é necessário estar “louco” ou sofrendo. Basta que queiramos nos conhecer melhor. Está aí o caráter preventivo da Psicologia na vida das pessoas. O Brasil ainda não tem uma postura preventiva diante da saúde, menos ainda diante da saúde mental. Contudo, este é o caminho para investirmos positivamente em nossa qualidade de vida.

Adalmir Sandro L. Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br

REFERÊNCIA:
ROGERS, C. R., ROSENBERG, R. A Pessoa como Centro. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1977.