“O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.” Poema Ser, Carlos Drummond de Andrade.
É. O tempo passa. Ao refletir sobre o fato de que nascemos, crescemos e somos educados para o sucesso, de alguma forma, é normal pensar que, na meia idade, todos nós queiramos estar no meio deste “sucesso” para o qual fomos, de certa forma, moldados, vivendo-o, colhendo os seus primeiros frutos; mas, ainda, construindo-o. É fato que o sucesso, ou o que se entende por ele hoje, é um domínio das classes mais altas. A pessoa de meia idade, diz-se dos 40 aos 60 anos (há quem discorde) pode passar por algumas crises ao pensar no que tem construído até esse momento de sua vida. Acredito que o seu maior anseio é saber – sem perguntar a ninguém – se ainda é interessante, não só por seu jeito de ser, mas também fisicamente. O rosto juvenil ainda aparece em alguns traços, insiste em existir; porém, o charme de uma beleza madura parece reivindicar um lugar que agora é seu. A transição feita aos 40 anos não é tão simples, especialmente para os solteiros. O início do poema de Drummond já passa a fazer um sentido concreto. Não dá para negar que “o filho que não fiz hoje seria homem”. Talvez não haja um sofrimento por não ter tido um filho, se esta foi uma opção; mas, parece que o que ele ou ela compreende por solidão é reelaborado. Não dá para mentir para si e viver uma solidão cinematográfica, sentado, à noite, em um sofá, olhando as luzes da cidade e achando que estar só é um momento que vai passar, já que “tenho uma vida inteira pela frente”.
A meia idade pode ser um fantasma, um disfarce sinistro do tempo. Tudo ainda é belo. Ainda... Cosméticos, plástica, colágeno, elastina, alimentos saudáveis, antioxidantes passam a ser palavras comuns no dia a dia de muita gente de meia idade. Não que seja ruim estar onde está, mas... acostumar-se é o único jeito. Então... não é tão bom, de fato. Em termos psicológicos, há uma revisão do esquema corporal, do tudo e do todo que se é até aquele momento. Uns se entregam a uma vida sedentária. Agora é só trabalho – ou trabalho e estudo – daqui para frente. Outros se entregam às academias. Agora é tudo ou nada. Músculos modelados ou solidão para sempre!... É angustiante lutar para continuar existindo em uma sociedade que estima excessivamente a beleza juvenil, da pele firme, do tônus muscular “adequado” – digo, sarado. Tudo não passa de um desejo de se estar ainda aqui, vivo no mundo, amando ou sentindo que ainda dá para ser amado, querido por alguém. Temos medo da velhice por sabermos que, na verdade, quando envelhecemos deixamos de existir do jeito da maioria e passamos a existir de outro jeito. O jeito ancião de existir não seduz pela aparência; pelo contrário, seduz a poucos. A meia idade é um aviso, um “sinal amarelo”, ou a lembrança da certeza de nossa finitude. Até ela, muitos de nós nos sentimos eternos, ou simplesmente não consideramos o inegável fato de que o tempo passa, não para.
A meia idade não é um mistério. É um momento concreto. Para os que ouviram alguém um dia, a meia idade é o começo de uma colheita. É a fase de amores carnais sim, mas com uma boa conversa. Hoje, com o avanço tecnológico da medicina e da estética, a meia idade é uma possibilidade de muitas novas experiências, de escolhas antes nunca feitas. Sem nenhuma dúvida, é um momento para ser vivido. Já que o tempo não para, só nos resta viver. Que seja bem!
A. Sandro Luz
Terapeuta e professor