segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O QUE É A SOLIDÃO?

Ando pelas ruas, vou ao trabalho, visito amigos, vou a locais de entretenimento, busco por pessoas e por formas de sobrevivência na sociedade. Mas, um dia, bate aquela tristeza que me faz perguntar porque tudo isso... Por que trabalhar, visitar amigos, ir a cinemas, restaurantes? Por que, de repente, tudo isto ainda me faz sentir só? Por que existem momentos em que nos sentimos tão solitários, que parece que vamos sufocar ou afundar? A solidão é um fenômeno que sempre existiu na história humana. Ainda que nós sejamos seres sociais em nossa formação, há momentos em que ninguém preenche certo vazio que vai lá dentro... É difícil explicar... Na sociedade ocidental, aprendemos com o cristianismo a valorizar a vida comunitária. Entretanto, ficou uma lacuna no que diz respeito ao cultivo da vida individual. Tudo é coletivo. Um dos sinais da dificuldade que temos em cultivar a individualidade (falo da boa individualidade, não do individualismo egoísta) é a falta do silêncio. O silêncio é o grande sinal da presença da solidão em nossas vidas. Pode ser o silêncio físico mesmo (aquele da falta do som), ou o silêncio que cala a gente por dentro independentemente dos ruídos à nossa volta. O silêncio é irmanado com a solidão, mas não tem a intenção de nos fazer mal. A questão da solidão hoje em dia tem a ver com a imensa dificuldade que temos de realmente estarmos com o outro. A casa enche de gente, o trabalho está cheio de "amigos", mas, no fundo, ninguém se vê, ninguém se ouve... A solidão começa quando todas as presenças que estão em nossa vida não nos dizem muito sobre nós mesmos. Atualmente, tenho a impressão de que as pessoas "se juntam" para consumirem o tempo de vida que têm, nada mais. Não há pensamento nem troca de experiências. Falo de trocas significativas. Sentam-se à mesa de um bar ou de uma casa e falam; mas, não se escutam... Por isso, dá para notar que, se alguém parar para ouvir o que está sendo dito, ouvirá muitas vozes falando uma por cima da outra. De repente, todos riem... e as vozes continuam borbulhando juntas, altas. Mas... ninguém, de fato, escuta o outro. No trabalho, existe o culto à produtividade. Mais do que estar com os outros nesse ambiente, a pessoa precisa produzir. O contato com os colegas de trabalho é um meio para que a pessoa sozinha atinja as suas metas. Já não existe trabalho de equipe, mas pessoas individuais trabalhando no mesmo local. Afinal de contas, não se promovem todos ao mesmo tempo...
Todo o contexto de estresse em que vivemos, contas para pagar, filhos se tornaram altamente caros para sustentar (ainda que os amemos), os impostos são abusivos, no caso do Brasil. Nada mais é barato e tudo se consegue por meio somente do dinheiro. Somos educados a ser racionais o tempo todo e sobra-nos pouco tempo para cultivarmos a afetividade. Sem perceber, esfriamos... A solidão, a má solidão, bate à porta e entra, instala-se na nossa vida e leva-nos a sentir o vazio de uma vida sem sentido, apesar dos risos, da cerveja e do carnaval ou, até mesmo, apesar de Deus na igreja da comunidade do bairro. Um dos fatores que nos levam ao sentimento da solidão, à tristeza de estarmos sós no mundo, é a perda da habilidade de nos colocarmos no lugar do outro no dia a dia. Estranho, mas o individualismo nos conduz ao distanciamento do outro e, consequentemente, ao distanciamento de nós mesmos... Quando já não sabemos quem somos, sentimo-nos sós. Um bom exercício para combater a má solidão é buscar aprender a estar só e a colocar-se no lugar do outro ao ouvir a sua história. Não há receitas de como vencer a solidão. Ela existe e não está aí para ser vencida, mas vivenciada de uma maneira saudável. Precisamos de momentos a sós, de silêncio. Os brasileiros não gostam do silêncio. Aprendemos a ser um povo barulhento, impaciente. Explorar o lado bom da solidão nos ajudará a sofrermos menos com os seus efeitos. Na próxima postagem, falarei sobre a boa solidão. Abraço a todos. 09h41

Adalmir Sandro
Psicólogo