domingo, 19 de junho de 2016

O Eremita

Para quem não sabe, eremitas são homens e mulheres que decidem se afastar do convívio social e passam a ter uma vida de meditação e contemplação de um mistério no qual creem. Obviamente, necessitam de um local físico afastado dos meios urbanos. Os mosteiros cristãos inseridos nas cidades não representam uma vida eremítica. Estes seriam moradas de monges cenobitas, que privilegiam a convivência comunitária entre si e são abertos ao contato com o que chamam de "mundo", ou seja, nós. Dentro da história do cristianismo, São Bento teria sido a pessoa comum que introduziu o estilo de vida eremítico no ocidente. Isto há mais de mil anos já. Bem, por que trago hoje esta reflexão? Não se trata de explorar a história dos eremitas, mas de tentar uma relação entre sua escolha e o que simbolizaria estar "afastado" do outro. Digo "outro" e não "outros" porque penso na perspectiva psicológica e não numérica deste "afastamento". Não é de quantos alguém se afasta. Não é esta a questão. Eu gostaria de refletir aqui sobre um possível eremita que podemos cultivar dentro de nós, que não seria alguém que se isola dos outros por fobia social, por insegurança ou por achar que todos querem o seu mal. O sentido do afastamento que eu tento explorar é a condição de não necessitarmos do outro. Penso na necessidade enquanto dependência de um reconhecimento. Sei que percorremos um longo caminho até compreendermos que, lá dentro de nós, o melhor momento é aquele no qual não precisamos de outra pessoa para estarmos bem com quem somos. Veja bem, não se trata do discurso individualista atual, que defende o SEU sucesso a qualquer preço, que nos ilude apregoando que "VOCÊ pode ser o que quiser!", "VOCÊ pode tudo!", etc. Meu pensamento não percorre a ideologia ocidental intimista, por meio da qual aprendemos a ser seres isolados no meio coletivo. A "não necessidade" do outro, aqui, estaria fundada na ideia de "estar comigo mesmo". O eremita não está fora do mundo. Está com alguém em quem ele crê e, portanto, está próximo de si mesmo, pois acredita que faz o que sua essência lhe pede. O que pede a essência humana? Em que momento eu sinto que toquei minha essência e melhorei a minha interação com as outras pessoas, com o "outro"? No decorrer da vida, é importante, talvez essencial, que saibamos estar sós e estar bem com isto. Saber estar só é compreender a solidão como necessária, visto que o silêncio tem a capacidade de nos aproximar de nossa essência. Pode ser aterrador, a princípio; mas, é um exercício necessário. Assim, não haverá a depressão, que é mais do que um desequilíbrio na recaptação da serotonina. É uma impossibilidade de estar só, um desespero diante da história que "eu não aceito ver nem reler": a minha história. Seja um eremita em algum momento de sua vida. Esteja consigo mesmo(a) e estará com o "outro", com o mundo.

Abraço a todos!

Sandro Luz

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

QUANDO ADOECEMOS...



Olá a todos!
Quando adoecemos não é somente o nosso corpo que se altera, não é somente o jeito dele funcionar que muda. Nós mudamos a partir dos nossos pensamentos sobre a doença. Então, adoecer não é só um processo físico, mas mental também. Ou seja, o que pensamos e o que sabemos sobre a nossa enfermidade pode agravá-la ou amenizá-la. Então, a doença não existe de fato? Sim, ela existe; porém, nós temos mecanismos que podem fortalecer ou enfraquecer o nosso sistema imunológico, as nossas defesas internas. Obviamente, uma boa alimentação ajudará. Sempre ajuda! Mas, não há inimigo maior de nós mesmos do que a tristeza diante da doença. Ao entristecermos, produzimos menos endorfinas, que têm a função de nos fazer sentir bem. O que pensamos, portanto, está estreitamente ligado ao funcionamento de todo o nosso organismo, enfraquecendo-o ou fortalecendo-o.
A doença sempre foi vista como um obstáculo à vida humana. Sempre existiu o medo de adoecer. Na idade média adoecer era praticamente sinônimo de morte, uma vez que as condições de higiene na Europa naquela época eram péssimas. Sempre fugimos da dor e da doença. O filósofo grego Epicuro acreditava que o homem buscava afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Em nossa história, apesar de termos aprendido sobre os benefícios da dor e do sofrimento enquanto ferramentas para o nosso amadurecimento, sofremos demasiadamente com situações de dor e doença, física ou psicologicamente. Quando adoecemos, a nossa existência adoece. Quanto mais sério é o problema orgânico, maior é a nossa dor existencial. Temos medo de sermos fracos. Por quê?
Nossa sociedade ocidental, apesar de ser embasada nos valores judaico-cristãos, vive a síndrome da onipotência. Crescemos e aprendemos que o sucesso é tudo o que dá sentido às nossas vidas. Falo do sucesso material, financeiro. Infelizmente, a cultura não rola aqui. Isto na maioria dos casos. Crescendo assim, não nos damos conta de nossa fragilidade enquanto grãos de um cosmos infinitamente maior do que nós. Como disse muito sabiamente o Dalai Lama em um de seus valiosos discursos, "vivemos como se nunca fôssemos morrer, e morremos como se nunca tivéssemos vivido!..." O sentimento de onipotência, sobretudo na juventude e nos jovens adultos, não nos prepara, enquanto pessoas, para a possibilidade da doença e da dor em qualquer fase da vida. Quando alguém diz que sente dor, há quem diga: "você parece velho!", e coisas do tipo. É claro que não devemos sair à procura de doenças só para provarmos que somos maduros ou porque queremos amadurecer. Não façam isto ok! ;-)
Entretanto, cabe pensar que a dor também tem algo a nos ensinar; a doença é parte da vida humana. Não é uma punição, mas uma contingência de se existir. Então, pensemos nesta parte da vida enquanto algo nosso e não do "demônio" ou da "ira de Deus". Quando somos humanos de fato, assumimos tudo o que advém desta condição. Se aceitamos que somos frágeis, melhoramos a nossa auto-estima. Sentimo-nos bem com o que somos: pessoas que estão aqui, agora.
Abraço a todos!

Sandro Luz


domingo, 17 de novembro de 2013

O VÍRUS DO VÍRUS


Se alguém aqui já viu o filme Zeitgeist Addendum, um documentário sobre a corrupção social humana, patrocinada especialmente pelos Estados Unidos, ou pelo governo americano e seus grandes conglomerados econômicos, irá estabelecer alguma relação com o roteiro do filme e o que direi neste artigo. Digo alguma relação, pois o raciocínio não é o mesmo, já que sou brasileiro e pretendo expor algo de um jeito menos complexo.
Por que o nome “vírus do vírus”? Bem, comecemos por pensar em levantes sociais e suas causas. Um de meus alunos de inglês me disse um dia que uma revolução inicia quando os humildes se sentem humilhados. Ele quis dizer que não existe uma revolução que venha de cima para baixo. Claro que não! Os mais ricos, que detêm o poder, vivem em sua zona de conforto e têm o controle financeiro de uma sociedade. Obviamente, eles não têm pelo que lutar a não ser por si mesmos. Infra-estrutura de saúde, de educação, de moradia e saneamento, trabalho, enfim, eles têm tudo de que necessitam e agradecem a Deus pelo fruto de “seu” trabalho, como se trabalhassem sozinhos e não tivessem funcionários que trabalham até mais do que eles, mas não recebem os mesmos “presentes” de Deus. Daí, as comoções sociais. Há um momento em que um grupo mais articulado resolve reagir àquilo que parece natural para os mais ricos, mas que provoca sofrimento à maioria. Começam a reagir a uma estrutura que não os privilegia, ou que não os reconhece. Sim, os levantes sociais são uma exigência de reconhecimento social, uma luta para sair da invisibilidade.
Nos últimos meses, o Brasil tem sido palco de diversas manifestações de ruas, com certa dose de radicalidade, ainda que não se tratem de uma revolução no termo estrito da palavra. São manifestações que visam à transformação da estrutura política e social do país, mas não são revoluções armadas. Pelo menos, assim entendo. Para os que leram sobre a revolução francesa, sabem que o nosso caso é bem mais brando, digo, as nossas manifestações. A tomada da Bastilha foi sangrenta e poucos foram os nobres que sobreviveram para contar a história a partir de sua ótica opressora. Falando na ótica do opressor, qual seria ela em termos discursivos? Seria mais ou menos o que ouvimos nos noticiários da famigerada rede globo de televisão. Coisas do tipo “vândalos estão depredando o patrimônio público”. Entendam bem que não estou assumindo uma posição a favor da depredação de ônibus e prédios públicos. Porém, vejo que há uma forma simbólica nesses atos de se agredir o Estado agressor. Obviamente que existem os mais comedidos, que levam seus cartazes, e os mais radicais, que depredam prédios públicos.
A mídia, estrategicamente, faz o seguinte: volta a atenção de todos para os componentes do Black Block e outros com comportamento semelhante. Daí, passam a falar de destruição, exibem ônibus em chamas, agências de banco depredadas, etc. Tudo é transformado em um grande espetáculo visual e o principal fica de fora, o porquê desta forma de violência. Com o foco de nossa atenção no Black Block, somos induzidos a continuarmos sem pensar nas razões pelas quais realmente necessitamos de mudanças. Prestem atenção aos prédios públicos! São pobres em geral. As escolas públicas, principalmente as estaduais, parecem presídios, são desconfortáveis e mal equipadas. O transporte público é vergonhosamente ineficaz. Alguém de vocês já utilizou os trens da CPTM? Nem porcos seriam transportados nesses trens em países mais sérios. Sim, o patrimônio público está sendo depredado pelo próprio Estado. A vida dos cidadãos é uma vida depredada pelo fruto da corrupção, da verticalização do poder. As pessoas são subjugadas a um sistema financeiro aterrorizador, que as obriga a produzir para pagar suas dívidas. Dívidas intermináveis, que as mantêm sob controle.
Os “vândalos” são o que os meios de comunicação precisavam para não revelar o câncer social. Falemos deles e todos ficarão desencorajados a fazer uma revolução. Eles são um vírus. É feio gritar e arrebentar, expor o ódio e a indignação contidos há cinco séculos de negligência administrativa no Brasil. Quem nunca sentiu vontade de quebrar os trens da CPTM, de arrebentar uma maldita porta giratória de um banco, que nos rouba a juros altíssimos pelos empréstimos que faz com um dinheiro que não é dele e ainda nos trata como marginais em suas portas? Medo!... Medo é o que sentem as instituições que mantêm o status de desigualdade irracional em que vivemos. A própria psicanálise fala do superego enquanto instância psíquica que internaliza as normas sociais e oprime o id, nossa instância mais agressiva e natural. Infelizmente, a psicanálise não teve um discurso politicamente forte o bastante para explicar porque existe o domínio dos poderosos. Esta é uma questão sociológica, ideológica, regida pelos grandes conglomerados financeiros, CIA, etc.
Falemos do Black Block, falemos do que eles quebram e assim ignoraremos os reais motivos pelos quais vivemos na merda social, comendo na latrina dos ricos, vivendo para acreditar que ser bem sucedido é poder comprar, fazer dívidas, alimentando, assim, a nossa abelha-rainha, o dinheiro, que, no fundo, sequer existe de fato. Aí está o vírus real!
Esta não é uma realidade brasileira, mas um fenômeno mundial. O Brasil é parte disto. A rede globo é paga para manter o status quo. Afinal de contas, ela deve, como todos nós devemos. Se alguém cortar a raiz do sistema, o marketing desaparecerá, Neymar (a figura, não a pessoa), Barcelona, Ford, Exxon e outros demônios pós-modernos desaparecerão.
Os mecanismos de controle ideológico são sutis e continuarão se aperfeiçoando enquanto for interessante para o pequeno percentual que controla quase toda a riqueza mundial e tem na desigualdade um fator necessário para seguir existindo. É isto mesmo: a desigualdade é fator necessário para a sobrevivência do sistema social em que vivemos. Ela é a grande condição para a perpetuação do capitalismo, do neoliberalismo. Ao se falar dos “vândalos”, não se fala destes detalhes sórdidos. A mídia acompanha tudo e adocica a boca de quem acredita nela. E assim vamos indo. Dá para ser feliz assim? Dá, claro que dá. A felicidade não supõe o torpor do raciocínio. Ninguém precisa ser ingênuo para ser feliz. Mas, ser feliz é mais uma luta por algo justo, do jeito que escolhermos lutar, do que um estado constante de bem-estar. Saber é sofrer, mas é, também, libertar-se, rir sabendo do que e porque se ri. Abraço a todos.

Sandro Luz

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O QUE É A SOLIDÃO?

Ando pelas ruas, vou ao trabalho, visito amigos, vou a locais de entretenimento, busco por pessoas e por formas de sobrevivência na sociedade. Mas, um dia, bate aquela tristeza que me faz perguntar porque tudo isso... Por que trabalhar, visitar amigos, ir a cinemas, restaurantes? Por que, de repente, tudo isto ainda me faz sentir só? Por que existem momentos em que nos sentimos tão solitários, que parece que vamos sufocar ou afundar? A solidão é um fenômeno que sempre existiu na história humana. Ainda que nós sejamos seres sociais em nossa formação, há momentos em que ninguém preenche certo vazio que vai lá dentro... É difícil explicar... Na sociedade ocidental, aprendemos com o cristianismo a valorizar a vida comunitária. Entretanto, ficou uma lacuna no que diz respeito ao cultivo da vida individual. Tudo é coletivo. Um dos sinais da dificuldade que temos em cultivar a individualidade (falo da boa individualidade, não do individualismo egoísta) é a falta do silêncio. O silêncio é o grande sinal da presença da solidão em nossas vidas. Pode ser o silêncio físico mesmo (aquele da falta do som), ou o silêncio que cala a gente por dentro independentemente dos ruídos à nossa volta. O silêncio é irmanado com a solidão, mas não tem a intenção de nos fazer mal. A questão da solidão hoje em dia tem a ver com a imensa dificuldade que temos de realmente estarmos com o outro. A casa enche de gente, o trabalho está cheio de "amigos", mas, no fundo, ninguém se vê, ninguém se ouve... A solidão começa quando todas as presenças que estão em nossa vida não nos dizem muito sobre nós mesmos. Atualmente, tenho a impressão de que as pessoas "se juntam" para consumirem o tempo de vida que têm, nada mais. Não há pensamento nem troca de experiências. Falo de trocas significativas. Sentam-se à mesa de um bar ou de uma casa e falam; mas, não se escutam... Por isso, dá para notar que, se alguém parar para ouvir o que está sendo dito, ouvirá muitas vozes falando uma por cima da outra. De repente, todos riem... e as vozes continuam borbulhando juntas, altas. Mas... ninguém, de fato, escuta o outro. No trabalho, existe o culto à produtividade. Mais do que estar com os outros nesse ambiente, a pessoa precisa produzir. O contato com os colegas de trabalho é um meio para que a pessoa sozinha atinja as suas metas. Já não existe trabalho de equipe, mas pessoas individuais trabalhando no mesmo local. Afinal de contas, não se promovem todos ao mesmo tempo...
Todo o contexto de estresse em que vivemos, contas para pagar, filhos se tornaram altamente caros para sustentar (ainda que os amemos), os impostos são abusivos, no caso do Brasil. Nada mais é barato e tudo se consegue por meio somente do dinheiro. Somos educados a ser racionais o tempo todo e sobra-nos pouco tempo para cultivarmos a afetividade. Sem perceber, esfriamos... A solidão, a má solidão, bate à porta e entra, instala-se na nossa vida e leva-nos a sentir o vazio de uma vida sem sentido, apesar dos risos, da cerveja e do carnaval ou, até mesmo, apesar de Deus na igreja da comunidade do bairro. Um dos fatores que nos levam ao sentimento da solidão, à tristeza de estarmos sós no mundo, é a perda da habilidade de nos colocarmos no lugar do outro no dia a dia. Estranho, mas o individualismo nos conduz ao distanciamento do outro e, consequentemente, ao distanciamento de nós mesmos... Quando já não sabemos quem somos, sentimo-nos sós. Um bom exercício para combater a má solidão é buscar aprender a estar só e a colocar-se no lugar do outro ao ouvir a sua história. Não há receitas de como vencer a solidão. Ela existe e não está aí para ser vencida, mas vivenciada de uma maneira saudável. Precisamos de momentos a sós, de silêncio. Os brasileiros não gostam do silêncio. Aprendemos a ser um povo barulhento, impaciente. Explorar o lado bom da solidão nos ajudará a sofrermos menos com os seus efeitos. Na próxima postagem, falarei sobre a boa solidão. Abraço a todos. 09h41

Adalmir Sandro
Psicólogo

quarta-feira, 1 de maio de 2013

CLANDESTINIDADE E VISIBILIDADE: SER GAY NA CONTEMPORANEIDADE

Sempre que se utiliza a palavra "gay" é fácil notar que as pessoas tendem a se posicionar: ou são contra ou a favor. Não há meio termo quando se trata de homossexualidade ou bissexualidade. Isto, talvez, porque a sociedade se acostumou com apenas a forma heterossexual de relacionamento. O que quero dizer é que ser heterossexual não é uma escolha, mas impor a heterossexualidade a todos sim, é uma escolha. De qualquer maneira, estamos em uma sociedade aberta, cosmopolita, com mistura de culturas e de valores. As pessoas do século 21 já estão acostumadas com a diversidade, correto? Não sei... Será?!... Em minha experiência pessoal, percebo que não é bem assim. Sem dúvida, existe mais abertura. Isto graças a homossexuais que se expuseram (e se expõem) aos olhos da sociedade. Para que algo diferente seja "naturalizado" socialmente, é necessário que seja visto, notado, percebido. Obviamente, que a ética deve estar acima de toda forma de visualização social. Não quero dizer que os gays podem sair por aí fazendo sexo nas ruas nem dando beijos de língua em locais públicos. Até mesmo casais heterossexuais podem incomodar com esta atitude. Contudo, alguém precisa "dar a cara a tapa" para que avancemos. A contemporaneidade é uma mistura de avanços e retrocessos. Ainda somos submetidos aos nossos valores familiares tradicionais, de raiz judaico-cristã. O sexo, para vários, ainda é meramente para fins de reprodução. A pessoa homossexual, portanto, se vê entre a clandestinidade e a visibilidade. Sabe-se que existem gays; porém, os que são vistos, percebidos, são a minoria. Estes são os que não escondem ou não conseguem esconder a sua condição sexual. Os homossexuais que condizem com as regras comportamentais, ou seja, o rapaz é masculino e a mulher é feminina, ainda ficam ocultos, na maioria das vezes. Isto sem falar dos homens e mulheres casados, que sentem atração sexual por pessoas do mesmo sexo. São raros os casos em que tais pessoas declaram a sua homossexualidade, ou bissexualidade, aos familiares. Nestes casos, é complicadíssimo explicar o que acontece com o homem ou a mulher que se envolve em relações homoafetivas sendo, ainda, casados com alguém do sexo oposto.
O homossexual é e não é aceito. Depende do momento, depende de qual família ele se origina, depende de seu poder aquisitivo e de sua posição social (em alguns casos). Enfim, depende... A sociedade brasileira, e as sociedades latinas como um todo, ainda não estão afetivamente maduras para dialogar sobre a diversidade sexual. Muito tem sido feito a favor da visibilidade da pessoa homossexual. Ainda há muito a ser feito, não somente em nível de pesquisa científica. Em nível político também. A aceitação pode ser conseguida pelo caminho do reconhecimento da dignidade e da integridade da pessoa homossexual como alguém capaz de conviver em sociedade. Afinal, a orientação sexual é uma dimensão da pessoa, mas não a resume como um todo. É apenas uma parte dela. Somente a exposição deste tema em palestras, nas escolas, nas faculdades, de forma consciente e não mercadológica, ajudará a nossa sociedade, tão pobre culturalmente e tão desgastada por suas contradições e hipocrisia, a compreender a homossexualidade como parte, e apenas parte, de formas de expressão da afetividade entre seres humanos.

domingo, 1 de julho de 2012

SOBRE AS NOSSAS PERDAS NA VIDA

A nossa compreensão sobre o luto é bastante errada. Pensamos que estar de luto tem a ver somente com a morte de alguém querido, principalmente um parente. Na verdade, qualquer perda que soframos no decorrer da vida, que represente um peso para nós, é um motivo para ficarmos de luto. Se nos separamos de alguém depois de anos - ou até meses - de relacionamento, também ficamos de luto. Se um animal de estimação morre, o mesmo acontece. Também ficamos de luto se nos mudamos de um lugar do qual gostamos muito, onde fomos felizes ou vivemos momentos felizes. É claro que o luto, nesses casos,  não tem a mesma intensidade do luto em função da morte de alguém querido. Mas, não deixa de ser luto.

O luto é toda forma de elaboração de uma perda significativa em nossas vidas. Sentimos a falta, sentimos a perda e nos entristecemos. Na verdade, o luto é inevitável e necessário. Nossa vida é como um mapa que o cérebro desenha. Todas as mudanças significativas obrigarão o cérebro a redesenhar o mapa de nossas vidas. Se perdemos um parente ou um amigo querido, o mapa de nossa vida será redesenhado sem a presença desta pessoa. Ela não estará mais no dia a dia, a não ser nas lembranças. Isto é um trauma, sem dúvida. Todo trauma exige um tempo de adaptação dos nossos pensamentos, da nossa afetividade, enfim, de toda a nossa existência. Este tempo pode ser chamado de "luto".

O luto, portanto, pode ser imaginado, também, como um tempo de renovação da vida, de readaptação da vida a uma circunstância nova. A perda leva ao luto, quando esta significa muito para nós. Mas, o luto não existe somente por causa da perda; existe, também, como uma fase de reelaboração da vida diante de um contexto novo, muitas vezes inesperado.

O tempo de luto, contudo, tem um limite. Caso uma pessoa fique mais de seis meses em um estado profundo de tristeza por causa de uma perda significativa para ela, pode ser que esteja com depressão. Neste caso, é aconselhável o acompanhamento de profissionais de saúde mental da psicologia e da psiquiatria.

O Instituto Quatro Estações da PUC de São Paulo realiza um trabalho bastante interessante em casos de luto. Caso você ou algum conhecido seu esteja neste processo e esteja sofrendo muito, ajude-o, ou ajude-a, a entrar em contato com o Instituto Quatro Estações.

Abraço a todos.

Adalmir Sandro
Psicólogo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O QUE FAÇO COMIGO MESMO(A)?


Em algum momento de nossa história - e aí ressurgem as marcas do passado, incômodas, porém presentes até hoje - aceitamos a ideia (falsa) de que não merecemos estar bem, sermos, por assim dizer, "felizes". Ao pensar em "estar mal para ser aceito", fica uma outra dimensão para refletir. Não se trata somente do "ser aceito pelos outros", mas por "mim mesmo", na medida em que, em algum lugar inconsciente, ficou a ideia prevalente de que "estar bem não é para mim", não é um direito que me cabe. Nesta etapa da existência, portanto, eu me torno um "algoz de mim mesmo". Quando chega o dinheiro, sinto culpa, mal-estar. Quando vem o amor, sempre surgem os problemas insuperáveis, e o amor acaba, não sobrevive. Quando surgem alegrias, precisam ser efêmeras. Tudo isto em função de uma ideia que predomina no pensamento, enquanto função psíquica. 
Como superar este obstáculo? Fazendo como Descartes: duvidando. Devo questionar o sentido desse mal-estar em momentos bons, desse "desarranjo" na minha harmonia interna. Mais do que os outros, eu posso ser o meu maior obstáculo (sem acusações aqui, para não criar mais culpa). Tudo isto são frutos de uma história em que a auto-estima não foi cultivada, não aprendi a me achar bonito, não "me sentia", como se diz por aí. A autoconfiança então... foi pro ralo. Vida filha da puta! (na hora do desabafo). Mas, a raiz foi bem plantada. Eu me convenci de que "não posso estar bem", não tenho esse direito. Armadilhas do inconsciente. 
Enfim, um ponto para refletir. Refletir para avançar, duvidar do que me fizeram acreditar sobre mim. Daí, não precisarei estar mal pra me sentir no meu lugar. O MEU LUGAR PODE SER OUTRO. É preciso "subverter" a ordem dessa ditadura psíquica, plantada por outros e sustentada por mim mesmo. É um tanto intimista esta forma de pensar, admito; porém, não me parece "individualista". Afinal de contas, alguém tem que cuidar desta vida, que é minha. Lembro aqui um pensamento de Sartre: "O problema não é o que fizeram de mim, mas o que EU fiz do que fizeram de mim".

A. Sandro Luz
Terapeuta, professor e artista