Em algum momento de nossa história - e aí ressurgem as marcas do passado, incômodas, porém presentes até hoje - aceitamos a ideia (falsa) de que não merecemos estar bem, sermos, por assim dizer, "felizes". Ao pensar em "estar mal para ser aceito", fica uma outra dimensão para refletir. Não se trata somente do "ser aceito pelos outros", mas por "mim mesmo", na medida em que, em algum lugar inconsciente, ficou a ideia prevalente de que "estar bem não é para mim", não é um direito que me cabe. Nesta etapa da existência, portanto, eu me torno um "algoz de mim mesmo". Quando chega o dinheiro, sinto culpa, mal-estar. Quando vem o amor, sempre surgem os problemas insuperáveis, e o amor acaba, não sobrevive. Quando surgem alegrias, precisam ser efêmeras. Tudo isto em função de uma ideia que predomina no pensamento, enquanto função psíquica.
Como superar este obstáculo? Fazendo como Descartes: duvidando. Devo questionar o sentido desse mal-estar em momentos bons, desse "desarranjo" na minha harmonia interna. Mais do que os outros, eu posso ser o meu maior obstáculo (sem acusações aqui, para não criar mais culpa). Tudo isto são frutos de uma história em que a auto-estima não foi cultivada, não aprendi a me achar bonito, não "me sentia", como se diz por aí. A autoconfiança então... foi pro ralo. Vida filha da puta! (na hora do desabafo). Mas, a raiz foi bem plantada. Eu me convenci de que "não posso estar bem", não tenho esse direito. Armadilhas do inconsciente.
Enfim, um ponto para refletir. Refletir para avançar, duvidar do que me fizeram acreditar sobre mim. Daí, não precisarei estar mal pra me sentir no meu lugar. O MEU LUGAR PODE SER OUTRO. É preciso "subverter" a ordem dessa ditadura psíquica, plantada por outros e sustentada por mim mesmo. É um tanto intimista esta forma de pensar, admito; porém, não me parece "individualista". Afinal de contas, alguém tem que cuidar desta vida, que é minha. Lembro aqui um pensamento de Sartre: "O problema não é o que fizeram de mim, mas o que EU fiz do que fizeram de mim".
A. Sandro Luz
Terapeuta, professor e artista
A. Sandro Luz
Terapeuta, professor e artista