Para quem não sabe, eremitas são homens e mulheres que decidem se afastar do convívio social e passam a ter uma vida de meditação e contemplação de um mistério no qual creem. Obviamente, necessitam de um local físico afastado dos meios urbanos. Os mosteiros cristãos inseridos nas cidades não representam uma vida eremítica. Estes seriam moradas de monges cenobitas, que privilegiam a convivência comunitária entre si e são abertos ao contato com o que chamam de "mundo", ou seja, nós. Dentro da história do cristianismo, São Bento teria sido a pessoa comum que introduziu o estilo de vida eremítico no ocidente. Isto há mais de mil anos já. Bem, por que trago hoje esta reflexão? Não se trata de explorar a história dos eremitas, mas de tentar uma relação entre sua escolha e o que simbolizaria estar "afastado" do outro. Digo "outro" e não "outros" porque penso na perspectiva psicológica e não numérica deste "afastamento". Não é de quantos alguém se afasta. Não é esta a questão. Eu gostaria de refletir aqui sobre um possível eremita que podemos cultivar dentro de nós, que não seria alguém que se isola dos outros por fobia social, por insegurança ou por achar que todos querem o seu mal. O sentido do afastamento que eu tento explorar é a condição de não necessitarmos do outro. Penso na necessidade enquanto dependência de um reconhecimento. Sei que percorremos um longo caminho até compreendermos que, lá dentro de nós, o melhor momento é aquele no qual não precisamos de outra pessoa para estarmos bem com quem somos. Veja bem, não se trata do discurso individualista atual, que defende o SEU sucesso a qualquer preço, que nos ilude apregoando que "VOCÊ pode ser o que quiser!", "VOCÊ pode tudo!", etc. Meu pensamento não percorre a ideologia ocidental intimista, por meio da qual aprendemos a ser seres isolados no meio coletivo. A "não necessidade" do outro, aqui, estaria fundada na ideia de "estar comigo mesmo". O eremita não está fora do mundo. Está com alguém em quem ele crê e, portanto, está próximo de si mesmo, pois acredita que faz o que sua essência lhe pede. O que pede a essência humana? Em que momento eu sinto que toquei minha essência e melhorei a minha interação com as outras pessoas, com o "outro"? No decorrer da vida, é importante, talvez essencial, que saibamos estar sós e estar bem com isto. Saber estar só é compreender a solidão como necessária, visto que o silêncio tem a capacidade de nos aproximar de nossa essência. Pode ser aterrador, a princípio; mas, é um exercício necessário. Assim, não haverá a depressão, que é mais do que um desequilíbrio na recaptação da serotonina. É uma impossibilidade de estar só, um desespero diante da história que "eu não aceito ver nem reler": a minha história. Seja um eremita em algum momento de sua vida. Esteja consigo mesmo(a) e estará com o "outro", com o mundo.
Abraço a todos!
Sandro Luz
Nenhum comentário:
Postar um comentário