Certa noite, eu estava no metrô de São Paulo quando vi sentados diante de mim um senhor e uma senhora negros. A senhora era do Rio de Janeiro e estava elegantemente vestida com trajes africanos. Faziam parte do movimento da Consciência Negra. O que me chamou a atenção e me levou a citá-los neste artigo são algumas poucas palavras da bela e simpática senhora carioca. Entre outras coisas, ela afirmou, em sua conversa informal com o senhor paulistano, que ela era feliz na adolescência; porém, não via o mesmo nos adolescentes de hoje. Tristes e corrompidos, afirmou ela. E deu o porquê de sua opinião: o capitalismo. Ela afirmou que o capitalismo “corrompe e corrói o homem”. Ao ouvi-la, eu pensei em escrever este artigo. Pensei comigo: o que eu teria a dizer sobre isto enquanto psicólogo? Bem, inicialmente, eu gostaria de citar algumas palavras do psicólogo russo Aléxis Leontiev.
Ele afirma que “a consciência humana distingue a realidade objetiva do seu reflexo, o que leva a distinguir o mundo das impressões interiores e torna possível com isso o desenvolvimento da observação de si mesmo” (LEONTIEV, 2004 [1959]: 75). Simplificando, poderíamos conduzir esta reflexão para a questão que trata de quem sou eu diante do mundo que vejo. Como eu o percebo? Falo de um mundo capitalista, marcado pela valoração do outro a partir de sua produtividade. Como posso desenvolver a capacidade de me auto-observar em um mundo marcado pelo externalismo, ou seja, pelo que se vê imediatamente, a partir do ambiente externo a mim (roupas, carros, marcas publicitárias, dentes, cor dos olhos, cor da pele, penteados, beleza estética, etc.).
Leontiev acredita que nossa consciência tem a capacidade de diferenciar este mundo externo daquilo que eu sou, o que é de fora do que é meu, que me caracteriza. Daí, vem um ponto dolorido para se pensar: será que, hoje, um jovem, ou adulto mesmo, consegue "cuidar" de sua identidade em um contexto que não nos permite sermos quem somos ou, ao menos, percebermos que temos características que são somente nossas e que não dependem de certas marcas de roupas, etc., para existirem? Evidentemente que não estou fazendo, aqui, uma apologia ao anti materialismo. O mundo é regido pelo capital e é nele que precisamos aprender a sobreviver e a viver com o máximo de qualidade possível. Sem dúvida, temos nossos gostos estéticos, nosso fascínio pela beleza, e isto é bom. Entretanto, parece que o contexto capitalista, ou neoliberal, aproveita-se de nossa vocação natural pelo belo e nos seduz a ponto de só pensarmos em “comprar”, “consumir” o belo muito mais do que valorizá-lo ou criá-lo, ou, ainda, sentirmo-nos parte de toda esta beleza, que não está somente em “outdoors” (hoje banidos, ao menos da cidade de São Paulo, graças a Deus!).
Creio que o grande desafio da pessoa hoje seja sentir-se única em um mundo marcado por modelos de beleza, de vitória, de sucesso. Todos buscam o mesmo sucesso financeiro. O grande sonho é ser rico, como atleta ou artista, mas não como pensador. Pensar não combina com a lógica do capitalismo globalizado. Pensar existe se for para a publicidade, mas não para o desenvolvimento da consciência de que somos marcantemente semelhantes, porém únicos, irrepetíveis e fabulosamente humanos.
Obviamente, a chave do sucesso social, e não do sucesso do dinheiro e da fama, está na educação, na arte que desenvolve a consciência de si mesmo. A escola é fundamental neste contexto, e é por isso mesmo que ela é degradada e sucateada. O Estado sabe muito bem porque forma mal seus professores e os paga mal também. O sistema não precisa de pensadores, mas de produtores das mesmas coisas que geram riqueza sem conteúdo humano. Vale a pena enfrentar o desafio de saber quem você é neste emaranhado de vaidade e consumo irracional. Vale a pena cuidar do adolescente, da criança com quem você tem contato. No próximo artigo, conversaremos justamente sobre isto: a construção da auto-estima e da autoconfiança. Há diferença entre elas?
Um grande abraço e até mais.
Adalmir Sandro Luz Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br
REFERÊNCIA:
LEONTIEV, A. O Desenvolvimento do Psiquismo. Tradução de Hellen Roballo. 2ª. Edição. São Paulo: Centauro, 2004.
Ele afirma que “a consciência humana distingue a realidade objetiva do seu reflexo, o que leva a distinguir o mundo das impressões interiores e torna possível com isso o desenvolvimento da observação de si mesmo” (LEONTIEV, 2004 [1959]: 75). Simplificando, poderíamos conduzir esta reflexão para a questão que trata de quem sou eu diante do mundo que vejo. Como eu o percebo? Falo de um mundo capitalista, marcado pela valoração do outro a partir de sua produtividade. Como posso desenvolver a capacidade de me auto-observar em um mundo marcado pelo externalismo, ou seja, pelo que se vê imediatamente, a partir do ambiente externo a mim (roupas, carros, marcas publicitárias, dentes, cor dos olhos, cor da pele, penteados, beleza estética, etc.).
Leontiev acredita que nossa consciência tem a capacidade de diferenciar este mundo externo daquilo que eu sou, o que é de fora do que é meu, que me caracteriza. Daí, vem um ponto dolorido para se pensar: será que, hoje, um jovem, ou adulto mesmo, consegue "cuidar" de sua identidade em um contexto que não nos permite sermos quem somos ou, ao menos, percebermos que temos características que são somente nossas e que não dependem de certas marcas de roupas, etc., para existirem? Evidentemente que não estou fazendo, aqui, uma apologia ao anti materialismo. O mundo é regido pelo capital e é nele que precisamos aprender a sobreviver e a viver com o máximo de qualidade possível. Sem dúvida, temos nossos gostos estéticos, nosso fascínio pela beleza, e isto é bom. Entretanto, parece que o contexto capitalista, ou neoliberal, aproveita-se de nossa vocação natural pelo belo e nos seduz a ponto de só pensarmos em “comprar”, “consumir” o belo muito mais do que valorizá-lo ou criá-lo, ou, ainda, sentirmo-nos parte de toda esta beleza, que não está somente em “outdoors” (hoje banidos, ao menos da cidade de São Paulo, graças a Deus!).
Creio que o grande desafio da pessoa hoje seja sentir-se única em um mundo marcado por modelos de beleza, de vitória, de sucesso. Todos buscam o mesmo sucesso financeiro. O grande sonho é ser rico, como atleta ou artista, mas não como pensador. Pensar não combina com a lógica do capitalismo globalizado. Pensar existe se for para a publicidade, mas não para o desenvolvimento da consciência de que somos marcantemente semelhantes, porém únicos, irrepetíveis e fabulosamente humanos.
Obviamente, a chave do sucesso social, e não do sucesso do dinheiro e da fama, está na educação, na arte que desenvolve a consciência de si mesmo. A escola é fundamental neste contexto, e é por isso mesmo que ela é degradada e sucateada. O Estado sabe muito bem porque forma mal seus professores e os paga mal também. O sistema não precisa de pensadores, mas de produtores das mesmas coisas que geram riqueza sem conteúdo humano. Vale a pena enfrentar o desafio de saber quem você é neste emaranhado de vaidade e consumo irracional. Vale a pena cuidar do adolescente, da criança com quem você tem contato. No próximo artigo, conversaremos justamente sobre isto: a construção da auto-estima e da autoconfiança. Há diferença entre elas?
Um grande abraço e até mais.
Adalmir Sandro Luz Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br
REFERÊNCIA:
LEONTIEV, A. O Desenvolvimento do Psiquismo. Tradução de Hellen Roballo. 2ª. Edição. São Paulo: Centauro, 2004.
Achei muito interessante uma conversa deste assunto no metrô, normalmente escutamos assuntos bem superficiais.
ResponderExcluirO texto ficou ótimo, bem reflexivo e concordo quando diz que o adolescente perdeu sua identidade no meio de tantas exigências do capitalismo que ao meu ver é cruel demais com o ser humano.