quarta-feira, 19 de agosto de 2009

AUTO-ESTIMA E AUTOCONFIANÇA

No mundo de hoje não temos muito tempo para refletir sobre o que nos faz bem e como algum fato nos faz bem. Crescemos e nos desenvolvemos com muitas informações sobre quase tudo, mas com quase nenhuma reflexão. Entretanto, fica a pergunta: o que realmente nos faz bem? Sem dúvida, sentir-se bem está relacionado com estar bem consigo mesmo. Daí pensarmos na auto-estima, ou na alta auto-estima. A auto-estima é o que sinto por mim, o que penso de mim mesmo. Isto exige parar para pensar. Hoje em dia, a relação entre pais e filhos está, pelo que percebo, mais marcada por uma “alimentação” da autoconfiança em prejuízo da auto-estima.
Mas, qual viria a ser a diferença entre estes dois conceitos? Leia com atenção esta passagem:

...o fruto mais maduro dessa árvore (a sociedade) é o indivíduo soberano, o indivíduo próximo de si mesmo, o indivíduo livre da moralidade dos costumes, o indivíduo autônomo e supermoral (acima da moral), porque autônomo e moral se excluem um ao outro; numa palavra, o homem dotado de vontade própria, independente, persistente, o homem que tem o direito de prometer – e que possui em si mesmo a consciência orgulhosa, que faz vibrar todos os seus músculos, por aquilo que acabou de conseguir e por se encarnar em si, uma verdadeira consciência de seu poder e de sua liberdade, um sentimento de plenificação (sentir-se completo, pleno) do homem em geral (NIETZSCHE, 1887).

Nesta breve passagem da obra A Genealogia da Moral, do filósofo alemão Nietzsche, dá para perceber que auto-estima e autoconfiança, ainda que caminhem juntas, são diferentes. A auto-estima é estar próximo de si, orgulhoso de si mesmo. Já a autoconfiança é vibrar por tudo aquilo que consigo e acreditar, confiar que posso conseguir, que sou capaz. É claro que não se trata de uma receita de felicidade. Não existem receitas para ser feliz. Existe um caminho: buscar gostar de mim mesmo e confiar que posso vencer. Não me refiro à vitória financeira. Ainda existem pobres felizes. Refiro-me à vitória de estar vivo e acreditando em mim, relacionando-me saudavelmente com o mundo, com os outros.
Como um pai ou uma mãe podem ajudar um filho a gostar de si e a confiar em sua capacidade? Lembro-me, aqui, de uma aula de pós graduação que assisti na USP, com o Professor e Psicólogo Hélio Guilhardi. Ele disse que a autoconfiança pode ser adquirida elogiando o filho por algo que ele conseguiu, valorizando sua conquista. Já a auto-estima se adquire sentindo-se amado pelos pais. O filho não precisa fazer nada para ser merecedor do amor e da atenção dos pais. Basta existir. Eu, como pai ou mãe, amo o meu filho por ele existir. Abraço-o, beijo-o, sem medos, sem vergonhas tolas de tocá-lo e fazê-lo menos macho, se for um menino. Todos nós necessitamos do amor expresso no toque do corpo. Não bastam palavras.
O homem autônomo de Nietzsche é, antes de tudo, um homem que se ama, que está próximo de si. Mas, uma pessoa só pode se amar se alguém mostrar a ela o quanto ela vale. O amor é relação. A auto-estima, a boa auto-estima, nasce de uma relação de amor e respeito. Nasce de abraços, de carinhos. Não bastam presentes de fim de ano ou no mês de outubro. O filho, o amigo, o pai, a mãe existem o ano todo e precisam saber sempre que valem a pena, não por serem bons ou inteligentes, ou, ainda, produtivos, mas simplesmente por existirem.
Portanto, a tarefa de construir a alta auto-estima e a autoconfiança é constante. Na infância, na adolescência, na fase adulta e na melhor idade. Somos continuamente responsáveis pelo outro e por nós mesmos. Precisamos acreditar neste fato e agir em favor de nós mesmos e do outro.


Adalmir Sandro L. Oliveira
Psicólogo
CRP 06/84194
adalmir_sandro@yahoo.com.br


REFERÊNCIA:
NIETZSCHE, W. A Genealogia da Moral (1887). Trad. Antonio C. Braga. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal. São Paulo: Escala

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